sexta-feira, 29 de março de 2013
A dor, mistério do amor - Derramou seu sangue para nos salvar
Espacojames:
Linto dartigo, um pouco longo mas vale apenas ler para entedermos o tamanho
infinito do amor de Jesus pela humanidade.
Salve Jesus Cristo!
Salve Jesus Cristo!
Era o Templo restaurado por Herodes. Embora “feito de belas pedras e recamado de ricos donativos” (Lc 21, 5), bem longe estava de possuir o esplendor e a magnificência do anterior, erigido segundo a capacidade e a sabedoria de Salomão.
Naquele dia, um casal, levando o mais belo de todos os meninos, atravessou os umbrais do recinto sagrado, com o intuito de cumprir as prescrições da Lei a respeito dos primogênitos. Na aparência, aquela cena nada tinha de extraordinário: com muita frequência as famílias israelitas, vindas das mais variadas cidades, chegavam a Jerusalém, trazendo seus filhos para apresenta-los ao Senhor e oferecer o sacrifício prescrito pela Lei: um par de rolas ou dois pombinhos (cf. Lc 2-24). Quase sempre as mães preferiam associar esta cerimônia àquela da sua própria purificação, à qual estavam obrigadas pelas rígidas normas do Levítico.
Entretanto, nessa ocasião, o ritual da apresentação revestia-se de dimensões verdadeiramente divinas e fora previsto com séculos de antecedência pelo profeta Ageu: “Encherei de minha glória este templo – diz o Senhor do universo. A prata e o ouro me pertencem – oráculo do Senhor do universo. O esplendor futuro deste templo será maior que o primeiro – oráculo do Senhor do universo. Neste lugar Eu darei a paz – diz o Senhor do universo” (Ag 2, 7b-10). E por Malaquias: “Logo chegará a seu templo o Dominador, que vós procurais, e o Anjo da Aliança, que vós desejais” (Ml 3, 1b).
Com efeito, aquela arrebatadora criança, conduzida nos braços de sua Mãe para submeter-Se humildemente aos preceitos da Lei mosaica, era o próprio Dominador, o Filho Unigênito de Deus, nascido sob o domínio da Lei, para resgatar os que se encontravam sob o domínio da Lei (cf. Gl 4, 5).
Dia de gáudio e de glória aquele em que, por fim, as profecias atingiam sua realização e o Divino Menino começava a ser reconhecido pelos que “em Jerusalém esperavam a redenção” (Lc 2, 38).
“Uma espada transpassará a Tua alma”
Entrando no templo, Maria e José depararam-se com um ancião de venerável aspecto, que para lá se dirigira, cheio de esperança, sob a inspiração do Espírito Santo (cf. Lc 2, 27). Ao ver o Menino Jesus, Simeão, que poderia ser denominado o varão-esperança, logo começou a bendizer a Deus e a profetizar a respeito dEle, deixando admirados Seu pai e Sua mãe (cf. Lc 2, 33). Também Ana, a profetisa, que se encontrava no Templo, pôs-se a falar sobre Ele, tornando-se uma das primeiras anunciadoras da missão redentora de Jesus. Maria e José ouviam todas essas palavras, e Seus corações enchiam-se de gozo ao constatarem que o inefável mistério do qual ambos eram depositários, Deus Se dignara comunicá-lo também a outras almas, manifestando-lhes a presença de Cristo no mundo.
Simeão tomou o Menino nos braços e, após ter sido pago o imposto, entregou-O à Sua Mãe, dizendo-Lhe: “Uma espada transpassará a Tua alma” (Lc 2, 35).
Que contraste impressionante! Ali estava o casal princes, duas criaturas escolhidas por Deus para servir de arquetipia à humanidade: Maria e José. Nesses momentos de consolação, nos quais a Luz descida do Céu para revelar-Se às nações começava a deitar seus primeiros raios, abria-se já, de maneira oficial, a “via dolorosa” que o Senhor apontava à Sua Santa Mãe. A alegria de Maria – de possuir um Filho que é Deus e de pertencer a um Deus que é Seu Filho – naquele instante transformou-se em tristeza. Auge de alegria e auge de tristeza conjugaram-se no coração da Virgem: quanta perplexidade nessa ocasião em que tudo deveria falar de júbilo e, entretanto… “uma espada transpassará a Tua alma”!
Pelo pecado, o sofrimento tornou-se inerente à condição humana
Por que quis Deus unir a dor à alegria num verdadeiro paradoxo, inevitável na vida humana? Todos nós, pelas inclinações da natureza, sempre propensa a buscar a felicidade e a fugir de qualquer sofrimento, somos incapazes de compreender essa maravilha, se não for por um especial auxílio da graça. Fora da filosofia cristã iluminada pela fé, o problema da dor tem sido sempre algo difícil de resolver. Enquanto alguns a concebem como um mal a ser evitado a todo custo, outros, passando ao extremo oposto, consideram-na imprescindível e chegam a fazer dela um prazer malsão e amargo, única saída para sua falta de esperança.
A Igreja, ao contrário, sempre tratou desse assunto de forma equilibrada. Em virtude do pecado original, o sofrimento tornou-se inerente à condição humana, e o homem deve utilizar-se dele para o serviço de Deus, transformando-o numa fonte de méritos e até de glória.
A respeito do modo de como os homens, tanto os bons quanto os maus, suportam as tribulações, assim escreve Santo Agostinho: “Embora justos e pecadores sofram um mesmo tormento, o resultado não é o mesmo. O mesmo fogo faz resplendecer o ouro, purificando-o, e a palha lançar fumaça; o mesmo trilho serve para limpar os grãos e quebrar as arestas… Assim também, uma mesma adversidade purifica e aperfeiçoa os bons, e destrói e aniquila os maus. Por conseguinte, numa mesma calamidade, os pecadores se revoltam e blasfemam contra Deus, enquanto os justos O glorificam e pedem misericórdia; a grande diferença de sentimentos não está na qualidade do mal que uns e outros padecem, mas na das pessoas que o sofrem. Sacudidos de um mesmo modo, o lodo exala um mau cheiro insuportável, e o bálsamo precioso um suavíssimo odor”.
Cristo quis assumir a nossa carne em estado padecente
Para conhecermos a fundo todo o valor que se desprende da dor quando santamente aceita, bastanos observar que esta foi a via escolhida pela Providência para o próprio Homem-Deus e Sua Mãe Santíssima. Ao nos aproximarmos de um altar em qualquer igreja da terra, sempre o encontraremos presidido por um Crucifixo; e, aos pés dessa Cruz, indissociável do Filho, imaginamos uma Mãe que chora: Stabat Mater dolorosa, juxta crucem lacrimosa…

Reza a teologia que, para resgatar o gênero humano, teria bastado Nosso Senhor Jesus Cristo oferecer a Deus Pai um simples gesto, uma curta palavra, ou até mesmo um piscar de olhos, por serem de valor infinito todos os Seus atos. 2 Portanto, uma única gota de sangue derramada durante a Circuncisão seria suficiente para consumar a obra da Redenção.
Entretanto, decretou o Padre Eterno que Ele sofresse a Paixão e Morte de Cruz, pois não poderia permitir que a Seu Verbo – “efusão da luz eterna, espelho sem mancha da atividade de Deus, imagem de Sua bondade” (Sb 7, 26) – fosse negada uma glória em plenitude e esplendor. Foi por ilimitado amor ao Seu Unigênito que Deus permitiu as ignomínias da Flagelação, as humilhações do Ecce Homo, a exaustão da Via-Sacra e os tormentos da Crucifixão. O Filho, que por Sua natureza divina não era capaz de sofrer, quis assumir nossa carne em estado padecente, e não em corpo glorioso, como correspondia à Sua alma, a qual se encontrava na visão beatífica desde o primeiro instante da Encarnação.
Agindo desse modo, Deus não visou apenas operar a Redenção da forma mais esplêndida, mas quis propor aos homens de todos os tempos o Modelo perfeito a ser seguido. Assim se expressa a respeito deste tema o piedoso Pe. André Hamon: “Quando Deus, em Seus eternos decretos, decidiu a Encarnação do Verbo, propôs-Se apresentar aos olhos dos homens o modelo da vida nova que deveria salvá-los. Como homem, o Verbo Encarnado lhes mostraria o caminho; como Deus, lhes daria a garantia da perfeição do modelo. Suas virtudes seriam imitáveis, pois seriam a ação de um homem; e uma regra segura, já que seriam a ação de um Deus”.
O mistério profundíssimo da Cruz
Ora, ao contemplarmos o Homem-Deus, deparamo-nos com esse profundo mistério: Ele, o Onipotente, o Senhor da Glória, a quem os Anjos adoram sem cessar, “fez-Se em tudo semelhante a nós, exceto no pecado” (Hb 4, 15), e sofreu as contingências da condição humana como fome, sede, sono, e fadiga. Para a mentalidade do homem moderno – pervadida pela ideia de um triunfalismo mal compreendido, da qual desapareceu quase completamente o verdadeiro sentido da dor -, a figura de Nosso Senhor Jesus Cristo cravado na Cruz, clamando ao Pai a magnitude de Seu abandono, aparece como a de um fracassado. “Em verdade, Ele tomou sobre Si nossas enfermidades, e carregou os nossos sofrimentos: e nós O reputávamos como um castigado, ferido por Deus e humilhado” (Is 53, 4).
Entretanto, devemos procurar discernir a sublime lição contida no Sacrifício do Calvário, cuja renovação incruenta se opera diariamente em todos os altares do mundo. Em seu poema O Triunfo da Cruz, assim canta São Luís Maria Grignion de Montfort: “É a Cruz, sobre a terra mistério profundíssimo, que não se conhece sem muitas luzes. Para compreendê-lo é necessário um espírito elevado. Entretanto, é preciso entendê-lo para que nos possamos salvar. [...] A Cruz é necessária. É preciso sofrer sempre: ou subir ao Calvário ou perecer eternamente. E Santo Agostinho exclama que somos réprobos se Deus não nos castiga e nos prova”.5
Deus quis submeter o homem à prova
A vida no Paraíso Terrestre era isenta de qualquer incômodo. O homem estava mergulhado na felicidade: os vegetais se encontravam à sua disposição, os animais o serviam, não havia doenças nem cansaço, e, por um especial favor do Criador, a ameaça da morte não o atingia. Também sua alma vivia em paz, pois, graças ao dom da integridade, a carne e o espírito não entravam em conflito, e todas as paixões se ordenavam à luz da Fé.
Não obstante, em meio àquela agradável existência cheia de delícias, Deus quis que houvesse uma prova e, em consequência, uma pequena dor: “Não comas do fruto da árvore da ciência do bem e do mal; porque no dia em que dele comeres, morrerás indubitavelmente” (Gn 2, 17).
Era conveniente que Deus, seriedade infinita, exigisse do homem um tributo de sua submissão, por meio do qual este demonstrasse a autenticidade dos louvores e das honras que prestava a seu Criador. A aceitação desta prova era uma renúncia magnífica e uma homenagem ímpar, que partia da humanidade logo em seu nascedouro e se elevava até o trono de Deus.
O pecado e suas consequências
Ora, Adão e Eva sucumbiram à tentação. Talvez lhes tenha sobrevindo a ideia, não explícita, de que não deveria existir a mais leve dor na ordem da criação, e perante a prova que Deus lhes impunha tomaram uma atitude de revolta interior, induzidos a roubar a própria honra de Deus.
Os nossos primeiros pais pecaram. E a queda trouxe o castigo, em sentença proferida pelo próprio Deus: “Multiplicarei teus sofrimentos [...] maldita seja a terra por tua causa. Tirarás dela com trabalhos penosos o teu sustento todos os dias de tua vida” (Gn 3, 16-17).
O pecado produziu uma revolução nessa harmonia interior e exterior na qual antes viviam: o homem encontrou-se de repente cercado de mil perigos da natureza, os animais se lhe tornaram hostis, a terra produziu espinhos e abrolhos, e ele viu-se obrigado a comer o pão com o suor de seu rosto (cf. Gn 3, 18-19). Sua alma tornou-se vítima das más inclinações, sujeita ao erro e à rebeldia dos instintos contra os ditames da razão. E a História passou a registrar a peregrinação árdua e dolorosa de uma humanidade em guerra constante contra si mesma, conforme diz o Livro de Jó: “A vida do homem sobre a terra é uma luta” (Jó 7, 1).
A culpa de nossos primeiros pais que atraiu sobre eles, e sobre sua posteridade, a maldição e a perda da amizade de Deus, reparável somente por meio do Batismo e da graça. Mas atingiu também a ordem do universo, da qual Adão fora feito rei: “Deste-lhe poder sobre as obras de Vossas mãos, Vós lhe submetestes todo o universo” (Sl 8, 7).
Afirma São Paulo: “A criação foi sujeita à vaidade (não voluntariamente, mas por vontade daquele que a sujeitou), todavia com a esperança de ser também ela libertada do cativeiro da corrupção, para participar da gloriosa liberdade dos filhos de Deus. Pois sabemos que toda a criação geme e sofre como que dores de parto até o presente dia” (Rm 8, 20-22).

Um Deus abraçado à Cruz
Apesar de ter maculado a Criação, o pecado não conseguiu frustrar os planos de Deus, como era intuito do demônio. Pelo contrário, determinou Ele, em Seus insondáveis desígnios de misericórdia, estabelecer uma ordem do universo ainda mais bela e esplendorosa, nascida da Encarnação e do sacrifício de seu Filho Unigênito.
Na harmonia dessa nova ordem, haveria de ser preponderante o papel da dor. Tendo sido mal correspondida a prova no Paraíso, a vida da graça, trazida pela Redenção, não poderia conceber-se sem sofrimento, de modo que os “degredados filhos de Eva” reparassem a falta de seus pais.
Era preciso que os homens adorassem um Deus abraçado à Cruz, o Vir dolorum previsto por Isaías, cravado sobre o madeiro do opróbrio e da ignomínia, e tivessem diante do Homem-Deus moribundo todas as ternuras e venerações de que o coração humano é capaz.

Ele desceu a esta terra de exílio, atravessando as brumas do pecado sem Se deixar tocar por ele, e, tomando sobre Si as nossas fraquezas, com elas subiu ao Gólgota para ali consumar Seu holocausto e restituir aos homens a paz e a felicidade que haviam perdido.
É bem verdade que, ao longo dos três anos de vida pública, teve Ele um período brilhante aos olhos do mundo, durante o qual as multidões iam à sua procura, sôfregas de ouvir Seus ensinamentos e beneficiar-se de Seus milagres. Quando de Sua entrada solene em Jerusalém, a multidão cantava “hosana ao Filho de Davi” (Mt 21, 9). Houve, inclusive, aqueles que quiseram proclamá-Lo rei (cf. Jo 6, 15). Mas, em meio a todos os êxitos, a pior das dores incrustava-se em Seu Coração, delineando Sua missão de Servo Sofredor e deitando uma sombra sobre o futuro que O esperava: era a brutal falta de correspondência daqueles que mais O deveriam reconhecer. “Veio para o que era Seu, mas os Seus não O receberam” (Jo 1, 11).

Se, em Sua trajetória terrena, Nosso Senhor tivesse recebido sempre todas as glorificações do Tabor e do Domingo de Ramos, algo da Sua benquerença pelos homens e da Sua disposição de entregar a vida por eles teria deixado de refulgir aos nossos olhos, e não compreenderíamos suficientemente o mistério de amor que se discerne na Cruz e no Santo Sepulcro. “Ninguém tem maior amor do que aquele que dá a sua vida por seus amigos” (Jo 15, 13).
Somos chamados a colaborar na obra da Redenção

Ora, movido por Seu ilimitado amor aos homens, Jesus quis também a participação deles na Sua dor. Ele não necessita de concurso humano algum para redimir-nos, uma vez que o Preciosíssimo Sangue derramado na Paixão bastaria para apagar os pecados de infinitas criaturas, mas deseja associar-nos a Seus sofrimentos e assim fazer-nos partícipes de Seus méritos e de Sua glória. É este o simbolismo da água que o sacerdote mistura ao vinho, na preparação do cálice para o Santo Sacrifício. Nossas dores, de si, valem menos até do que umas poucas gotas de água, pois, o mais das vezes, estão contaminadas por imperfeições e misérias; mas unidas ao “vinho que engendra virgens”, podem aquelas tornar-se uma “mesma e única bebida de salvação”.6
São Paulo mostrou ter penetrado a fundo nesse mistério, quando escreveu em sua epístola aos Colossenses: ” Agora me alegro nos sofrimentos suportados por vós. O que falta às tribulações de Cristo, completo na minha carne, por Seu corpo que é a Igreja” (Cl 1, 24).
Esta passagem é assim comentada por Tanquerey: “Certamente, esta Paixão é, não somente completa, mas abundante e superabundante. No entanto, como Jesus é a cabeça de um corpo místico, do qual todos nós somos os membros, a Paixão deste Cristo místico se completa cada dia em seus membros sofredores, e ela não estará terminada senão quando o último dos eleitos tiver sofrido sua parte das dores de Cristo. [...] Então a dor terá um sentido, então seremos verdadeiramente os colaboradores do Divino Salvador na obra da salvação das almas”.
Crisol onde Deus lança as almas muito amadas
Levando isto em consideração, o papel da dor na vida humana adquire uma perspectiva tão elevada que torna inteiramente fora de propósito qualquer queixa ou inconformidade de nossa parte em relação às cruzes que Deus tenha por bem nos enviar.
Na aceitação inteira da vontade divina encontramos o melhor meio de restituir ao Criador a glória que Lhe foi negada pela primitiva desobediência, manifestando-Lhe, por um ato de conformidade com Seus desígnios, nosso tributo de amor e de reparação à Sua Majestade ofendida.
Ao mesmo tempo, se encetarmos as veredas da dor com ânimo resoluto, é-nos oferecida a ocasião de alcançar preciosos benefícios para o progresso de nossa vida sobrenatural. Dada a tendência natural do homem para o egoísmo, facilmente ele se esquece de Deus quando a felicidade e o sucesso parecem seguir seus empreendimentos. A adversidade é, pois, um poderoso auxílio para purificar a alma do apego excessivo às criaturas, obrigando-a a considerar a inanidade dos bens passageiros e voltar-se só para Deus, único Bem do qual tudo se pode esperar.
Tais disposições perante o sofrimento conferem um caráter respeitável àquele sobre o qual este se abate, tornando-o digno de admiração.
Nos dias de hoje, o sentido cristão da palavra “admirável” vai-se perdendo, dando lugar a conceitos deturpados, segundo os quais o homem, para alcançar a plena realização de sua personalidade, deve ser bem sucedido na vida, correr de vitória em vitória, sem jamais ser incomodado por qualquer revés ou dificuldade; só assim se tornará merecedor do aplauso e da aceitação dos demais. A experiência histórica, porém, nos revela o contrário: os homens sofredores, que ao longo de sua existência tiveram de enfrentar perigos, angústias, incompreensões e até mesmo aparentes catástrofes, mas, fortalecidos pela graça divina, acabaram vencendo, esses sim são verdadeiramente dignos da aprovação dos demais homens e do beneplácito de Deus.
A dor é, pois, o crisol onde a Providência lança as almas muito amadas, sobre as quais repousa uma especial predileção de Sua parte, para delas recolher apenas a prata finíssima, livre de qualquer impureza. O Livro do Eclesiástico deita uma luz sobre essa atraente temática: “Meu filho, se entrares para o serviço de Deus, permanece firme na justiça e no temor, e prepara a tua alma para a provação; humilha teu coração, espera com paciência, dá ouvidos e acolhe as palavras de sabedoria; não te perturbes no tempo da infelicidade, sofre as demoras de Deus; dedica-te a Deus, espera com paciência, a fim de que no derradeiro momento tua vida se enriqueça. Aceita tudo o que te acontecer. Na dor, permanece firme; na humilhação, tem paciência. Pois é pelo fogo que se experimentam o ouro e a prata, e os homens agradáveis a Deus, pelo cadinho da humilhação” (Eclo 2, 1-5).
Duas atitudes perante a tragédia
Recebida com resignação, ou com sobrenatural entusiasmo, a dor enaltece o homem e o convida a uma doação generosa de si mesmo, da qual, na prosperidade, talvez ele não se julgasse capaz. Assim, pode haver circunstâncias infelizes que, de modo inesperado, reduzam à derrota alguém anteriormente coroado de êxito. Colocado diante de sua própria tragédia, ele poderá chorar, lamentando seu fracasso, e afundar-se no abatimento e na revolta contra Deus; ou então ele se erguerá com uma grandeza de alma triunfal, compreendendo a beleza de seu infortúnio, já que este o aproxima mais da Divina Vítima do Calvário.
Em palavras dirigidas aos peregrinos reunidos na Praça de São Pedro, assim se exprimia o hoje Papa Emérito Bento XVI: “Jesus sofre e morre na Cruz por amor. Deste modo, considerando bem, deu sentido ao nosso sofrimento, um sentido que muitos homens e mulheres de todas as épocas compreenderam e fizeram seu, experimentando uma profunda serenidade também na amargura de árduas provas físicas e morais”.8

No instante em que o homem se abraça à Cruz e a toma como um presente da munificência divina, manifesta-se todo o poder sublime e ao mesmo tempo misterioso do holocausto. Sua dor torna-se fecunda e profícua, mais eficaz na ordem da Comunhão dos Santos e na realização dos desígnios de Deus do que seus esforços naturais ou suas demais obras apostólicas. Oferecido o sacrifício, algo na alma germina, nasce e gera frutos, elevando-se diante de Deus como oblação grata e imaculada, e dando ao homem uma alegria e uma paz interior que todas as riquezas e glórias do mundo jamais poderão proporcionar-lhe.
Nos dias cheios dos imponderáveis sérios e graves da Semana Santa, acheguemo-nos aos pés da Cruz onde pende o Salvador, abandonado por quase todos – sobretudo neste século em que tantos e tantos homens só procuram o prazer e bem-estar pessoal – e coloquemos nas mãos da Mater Dolorosa, cuja alma foi transpassada pelo gládio da dor, toda a nossa entrega e disposição de padecer por Cristo e por Sua Igreja. As lágrimas de Maria purificarão nossa oferta das eventuais misérias das quais possa estar manchada e a tornarão útil para a edificação de Seu Reino e o triunfo de Seu Imaculado Coração.
Irmã Clara Isabel Morazzani Arráiz, EP
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1 AGOSTINHO, Santo. A Cidade de Deus. l. 1, c. 8.
2 Cf. ROYO MARÍN, OP, Fr. Antonio. Jesucristo y la vida cristiana. Madrid: BAC, 1961, p. 324.
3 Cf. DENZINGER, H.. HÜNEMANN, P. Compêndio dos símbolos, definições e declarações de fé e moral. São Paulo: Loyola; Paulinas, 2007, p. 328, n. 1.025.
4 HAMON, M. André-Jean-Marie. Méditations. Paris: Lecoffre, 1933, v I, p. 55-56.
5 MONTFORT, São Luís Maria de. Carta-circular aos amigos da Cruz. Cântico “O Triunfo da Cruz”. Trad. Maria Helena Montezuma Pohle. Rio de Janeiro: Santa Maria, 1954, p. 67-68.
6 Cf. CANTALAMESSA, OFMCap, Raniero. Obediencia. Trad. Ricardo M. Lázaro Barceló. 3. ed. Valencia: Edicep, 2002, p. 71. TANQUEREY, Adolphe. La divinisation de la souffrance. Paris-Tournai-Rome: Desclée de Brouwer, 1931, p. IX-X. Ângelus, 01/02/2009.
7 TANQUEREY, Adolphe. La divinisation de la souffrance. Paris-Tournai- Rome: Desclée de Brouwer, 1931, p. IX-X.
8 Ângelus, 01/02/2009.
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quinta-feira, 7 de março de 2013
Carta Padre Beraldo do mês de março de 2013
CARTA MCC BRASIL - MAR 2013 (163ª.)
“Dar-vos-ei pastores de acordo com o meu projeto.
Eles governarão com clarividência e sabedoria” (Jr 3,15).
Meus
amados e irmãos e irmãs, caminheiros “quaresmais” neste singular
momento de uma nova Páscoa com a vinda de um novo Pastor para o Povo de
Deus:
1. A Igreja Católica na sua caminhada quaresmal de 2013.
Passado o impacto inicial provocado pela renúncia do Papa Bento XVI ao
Pontificado, a Igreja Católica - nós, portanto - passamos a viver, numa
providencial coincidência, um tempo quaresmal de “oração, jejum e
esmola” alimentados pela esperança de uma “Nova Páscoa”. Não quero fazer
aqui qualquer referência ao que presumem, dizem, afirmam, negam, ousam
e, até, inventam com uma espécie de quase sádica curiosidade, todos – e
são, agora, dezenas e, até, centenas - os que se intitulam ou são
intitulados de “vaticanólogos”, “vaticanistas”, ou “entendidos” em
Espírito Santo, ou peritos em profecias sobre o futuro da Igreja
Católica, mesmo que há anos-luz distantes dela, da fé por ela anunciada e
praticada e, até, de sua história milenar, etc...!
Quero
tão somente, agradecendo ao Pai que dá à igreja tais Pastores,
respeitar e louvar a grandeza e a fantástica repercussão da humildade e
do reconhecimento das próprias limitações de quem, até ontem, diante de
multidões que o aclamavam, era carregado nos ombros e o chamavam de “Sua
Santidade o Papa” e, não mais que de repente, volta ser o alemão Joseph
Ratzinger! Simples assim! Quero, admirando o inesperado gesto de
renúncia e desapego de um sábio e pastor – e espero que assim o façam
também meus leitores e leitoras animados pela mesma fé – quero viver
este momento singular na história eclesial como aquele momento “Kairós”,
o momento oportuno para a ação do Espírito Santo: “É agora o momento favorável, é agora o dia da salvação” (2Cor
6,1-2). “Salvação” no seu sentido de intervenção do mesmo Espírito na
vida da Igreja. Santa e providencial coincidência, pois este momento do
ano de 2013 será o coroamento da caminhada quaresmal da Igreja-Povo de
Deus com a celebração pascal da escolha de um novo Papa por elementos
humanos e do envio ao seu povo de um novo Pastor pelo Pastor dos
pastores, Jesus de Nazaré!
Pergunta:
meu caro irmão, minha irmã, por acaso, nestes momentos de certa
indecisão na vida da Igreja, ainda ressoa nos seus ouvidos aquela
palavra profética solenemente pronunciada por Jesus que, ao ouvir a
corajosa declaração de Pedro: “Tu es o Messias, o Filho de Deus vivo” lhe responde diante dos outros discípulos:
“Por isso eu te digo que tu és Pedro, e sobre esta pedra construirei a
minha Igreja, e o poder do inferno nunca poderá vencê-la”? (Mt
16,18). Ou, no seu coração e na sua mente têm mais lugar boatos,
insinuações, especulações ou interpretações de conteúdo eivado de
malícia e, até, de ódio contra sua Igreja?
2. O Povo de Deus caminha na história “rumo ao Reino definitivo”. Viveu o profeta Jeremias num clima de grande turbulência entre o povo hebreu e é no contexto da volta de um cativeiro (provavelmente por volta dos anos 600 a.C.) que ele prevê a generosidade de Javé ao prometer a seu povo “pastores de acordo com meu projeto”. Penso que as palavras com que o Beato João Paulo II inicia sua Exortação Apostólica Pós-Sinodal “Pastores Dabo Vobis” merecem, agora, uma oportuna reflexão: “Dar-vos-ei pastores segundo o Meu coração” (Jer 3, 15). Com estas palavras do profeta Jeremias, Deus promete ao seu povo que jamais o deixará privado de pastores que o reúnam e guiem: “Eu estabelecerei para elas (as minhas ovelhas) pastores, que as apascentarão, de sorte que não mais deverão temer ou amedrontar-se” (Jer 23, 4). A Igreja, Povo de Deus, experimenta continuamente a realização deste anúncio profético e, na alegria, continua a dar graças ao Senhor. Ela sabe que o próprio Jesus Cristo é o cumprimento vivo, supremo e definitivo da promessa de Deus: “Eu sou o Bom Pastor” (Jo 10, 11). Ele, “o grande Pastor das ovelhas” (Heb 13, 20), confiou aos apóstolos e aos seus sucessores o ministério de apascentar o rebanho de Deus (cf. Jo 21,15-17; 1 Ped 5,2)”. Repito, portanto, que julgo ser este um momento quaresmal único e privilegiado na história peregrinante do novo Povo de Deus.
3. Da peregrinação da Quaresma à Páscoa perene. Páscoa na história da salvação, Páscoa na Igreja-mistério, Páscoa na Igreja-comunhão, Páscoa na Igreja-missão. É a “passagem” pelas águas da libertação da escravidão egípcia para a “terra onde corre leite e mel” (cf.Ex 3,8); é a passagem da rigidez dos preceitos da Lei – Torá – para a ternura da misericórdia e da compaixão; é a passagem do “Amarás o teu próximo e odiarás o teu inimigo” para o “Amai os vossos inimigos e rezai por aqueles que vos perseguem! (Mt 5, 43-44); é a passagem de um breve tempo quando “a grande multidão...eram como ovelhas sem pastor” (cf. Mc 6,34) para um novo tempo quando “ao sair do barco, Jesus viu um grande multidão e encheu-se de compaixão”, primeiro “ensinando-lhes muitas coisas” e, logo em seguida, “tomando os cinco pães e os dois peixes, ergueu os olhos ao céu, pronunciou a benção, partiu ao pães e ia dado aos discípulos para que os distribuíssem” (cf.Mc 6, 34-42). Nossa Páscoa perene, pois, está na celebração de uma passagem que nos levará à Vida e à Ressurreição. Passagem, aliás, que, de certo modo, depende de nossa disponibilidade em ser uma “massa nova lançando fora o fermento velho”. Neste contexto, ouçamos São Paulo na Primeira Carta aos Coríntios: “Pois o nosso cordeiro pascal, Cristo, já está imolado. Assim, celebremos a festa, não com um fermento velho, nem com fermento de maldade ou de perversidade, mas com os pães ázimos de pureza e de verdade” (1Cor 6, 7b-8).
Ao desejar a todos uma perseverante caminhada quaresmal, desejo, sobretudo, que ela nos encontre a todos tão conscientes da festa pascal que, na santa noite da Vigília, ao receber o Círio aceso com aquele “fogo novo”, possamos cantar, com o diácono que anuncia o EXULTET, o júbilo da Páscoa: “Pois eis agora a Páscoa, nossa festa, em que o real Cordeiro se imolou: marcando nossas portas, nossas almas, com seu divino Sangue nos salvou”!
Pe. José Gilberto BERALDO
E-mail: jberaldo79@gmail.com
Nota. Já
é do conhecimento geral que, desde o dia 10 de janeiro pp., o MCC do
Brasil tem uma nova Coordenação Nacional, eleita na última Assembleia
realizada durante o Congresso Nacional, no final do mês de novembro de
2012. Entre outras iniciativas, tomou a citada NA a de conferir-me o
título de Assessor Eclesiástico Nacional Vitalício Benemérito do MCC do
Brasil. Cabe-me, portanto, manifestar, mais uma vez, minha gratidão
comovida a todos os irmãos e irmãs que, com tal gesto generoso,
manifestaram sua confiança em quem, por mais de 35 anos, serviu à Igreja
do Brasil no Movimento de Cursilhos. Por outro lado, de minha parte,
procurarei corresponder a essa confiança na medida de minhas limitações.
Incumbido pelo nosso atual Assessor Eclesiástico Nacional, Pe.Xico,
continuarei, até que o Senhor se dignar dar-me forças e discernimento
pastoral, escrevendo as Carta Mensais e dedicando parte do meu tempo
para redigir a história do MCC no Brasil, completando o que já expus no
Congresso Nacional com o tema “Achegas históricas do MCC do Brasil.
quinta-feira, 7 de fevereiro de 2013
Carta Pe. Beraldo Fevereiro de 2013
CARTA MCC BRASIL - FEV 2013 (162ª.)
“Sendo seus colaboradores, exortamos-vos a não receberdes em vão a graça de Deus, pois ele diz:
‘No momento favorável, eu te ouvi, no dia da salvação eu te socorri’.
É agora o momento favorável, é agora o dia da salvação” (2Cor 6,1-2).
Meus muito amados leitores e leitoras, peregrinos companheiros no “já agora” rumo ao “ainda não” que é o Reino definitivo:
1. Uma nova etapa na vida do seguidor de Jesus.
Eis que neste nosso peregrinar, reiniciamos uma nova etapa no
seguimento das pegadas de Jesus. Esta nova etapa chama-se tempo da
Quaresma. Depois de tê-lo recebido como a “Palavra que estava junto de Deus, e a Palavra era Deus” (cf.Jo 1,1) no Natal, feito à nossa carne semelhante; depois de, na Epifania, juntamente com os Magos, tê-lo contemplado como a “vida e a luz dos homens”
(cf.Jo 1,4), também como eles, “retornamos à nossa terra” (cf. Mt 2,12)
, isto é, voltamos ao nosso dia-a-dia, queira Deus que “passando por
outro caminho”, ou seja, o caminho da perseverante conversão, novamente
ao encontro com Jesus. Caminho que jamais deveria ser repetido porque há
sempre um encanto novo, um novo fascínio, um novo entusiasmo em
deixar-nos encontrar por Ele, em “não abandonar o primeiro amor, convertendo-nos e voltando à prática inicial” (cf. Ap 2, 4-5).
2. Um insistente convite para a conversão.
Por isso, de novo somos motivados e convidados pelo tempo quaresmal a
iniciar-se, neste ano, no próximo dia 13, a rever os nossos passos: “É agora o momento favorável, é agora o dia da salvação”,
adverte-nos o Apóstolo Paulo. Com certeza, ano após ano, temos ouvido
esta chamada. Uma chamada à conversão. É, até, bem possível que à força
de repeti-la, a palavra “conversão” tenha perdido toda a sua força
transformadora ou o seu alcance mais profundo para a nossa vida cristã.
Ao comentar o “sinal” operado por Jesus ao transformar a água em vinho,
nas bodas de Caná (cf. Jo, 2,1-12), assim se expressa um teólogo
contemporâneo a respeito da conversão: “O chamamento à conversão quase
sempre nos desagrada e nos cansa. Tornasse-nos tão antipático que a
própria palavra «conversão» foi desaparecendo do nosso vocabulário como
algo que é melhor esquecer. No entanto, é difícil que uma corrente nova
de vida e de alegria refresque a nossa existência se não começarmos por
transformar a nossa vida. A conversão é quase sempre o ponto de partida
necessário para começar uma vida mais intensa, mais profunda e gozosa.
Segundo Jesus, é um equívoco pôr um remendo novo num pano velho ou
colocar vinho novo em barris velhos. É um erro pôr pequenos remendos
numa existência envelhecida e deteriorada. Temos de renovar a nossa vida radicalmente”.[1] E prossegue com um “incômodo” questionamento: “É
a tragédia do nosso cristianismo. A nossa vida configura-se segundo os
critérios e esquemas de uma sociedade que não está inspirada pelo
evangelho. Pretendemos seguir Jesus sem conversão. O evangelho não
consegue introduzir uma mudança no nosso estilo de viver. Dir-se-ia que a
fé não tem força para transformar radicalmente nossa vida. Acreditamos
no amor, na conversão, no perdão, na solidariedade, no seguimento de
Jesus, mas vivemos instalados no consumismo, na busca egoísta do
bem-estar, na indiferença perante o sofrimento alheio”.
Pergunta:,
meu querido leitor, minha querida leitora, é assim mesmo que está
transcorrendo a sua vida de seguidor ou seguidora de Jesus? É este o seu
conceito de “conversão”? Ou este é o seu modelo de convertido (a)?
3. Alguns passos “quaresmais” para a conversão.
Diríamos que são sempre os mesmos e repetitivos, mas que são sempre o
itinerário mais adequado para uma vivência do tempo da Quaresma. Três
são estes passos:
3.1. Oração.
É comum ouvir-se dizer que “a vida do cristão já é uma oração” ou que
“devemos fazer da vida uma oração”. Sem dúvida, esta deveria ser a
realidade e a concretização de nossa relação com o nosso Pai que está
nos céus e com todos os nossos semelhantes. Entretanto, nem sempre é
assim, pois, em muitos casos trata-se de uma espécie de fuga do tempo
que deveria ser exclusivamente consagrado à oração. E nem a vida é uma
oração e nem a oração faz parte da vida. O exemplo de Jesus é claro e
motivador para estes momentos dedicados à oração. Os Evangelhos narram,
com destaque, a frequência com que, fugindo do ruído ou da aclamação das
multidões e, até, da convivência com os discípulos, Ele passava as
noites em oração. Subia às montanhas para orar (cf. Mt 14,23; Mc 6,46;
Lc 9,28; Jo 6,15), para dialogar com o Pai e para estar a sós na
intimidade com Ele.
Pergunta:
sobretudo neste tempo de Quaresma, haverá um tempo salvado do
corre-corre do seu dia, para dedicar-se ao diálogo com o Pai que está
nos céus? E não apenas para pedir, mas para agradecer e louvar? Ou, quem
sabe, para silenciar diante dEle e na intimidade dEle, silenciar o seu
coração e as vozes que o distraem de ouvi-Lo? Em fim, um tempo para a
contemplação?
3.2. Jejum.
Para além dos tradicionais dias de jejum e abstinência de carne
prescritos pela Igreja, é fundamental para os seguidores de Jesus que
sua observância seja concretizada na resistência aos fortes apelos de
uma sociedade altamente consumista, relativista e materialista. Quantas
vezes, atraídos pelas vozes dos modernos meios de comunicação,
deixamo-nos seduzir e intoxicar pelo acúmulo de tantas coisas supérfluas
e descartáveis ou pelo esbanjamento que, além de tudo, prejudicam a
convivência fraterna, o exercício da solidariedade e a prática da
justiça!
Pergunta:
nesta Quaresma, qual é sua disposição e disponibilidade para a renúncia
a tantas coisas inúteis e prejudiciais, não só para o seu crescimento
na vida cristã mas, até, para a sua própria saúde física?
3.3. Esmola.
Sabemos todos que o sentido de “esmola” ultrapassa o mero donativo de
algumas moedas ou de uma peça de roupa velha que já está para ser jogada
no lixo. Esmola é, antes de tudo, partilha, amor mútuo, auxílio aos que
sofrem, luta pela dignidade da pessoa. Esmola é solidarizar-se (do
latim “solidum” = fazer-se um com o outro); compadecer-se (sofrer com o
próximo que de nós necessita) e identificar-se com o “mandamento novo”: “Eu vos dou um novo mandamento: amai-vos uns aos outros” (Jo 13,34a). E amar sem medida, até dar a vida: “Como eu vos amei, assim também vós deveis amar-vos uns aos outros” (Jo 13, 34b).
Pergunta: neste tempo quaresmal, qual serão os gestos de “esmola” que você se dispõe a fazer?
Campanha da Fraternidade:
nós, católicos brasileiros participamos anualmente, na Quaresma, da
Campanha da Fraternidade, cujos lemas e temas, sempre muito oportunos,
contribuem, para aprofundar nossas reflexões e ajudar nossa tomada de
posição frente a situações e problemas que desafiam nossa fé e nos
ajudam a construir uma sociedade sempre mais justa e fraterna. Neste
ano, devido à celebração no mês de julho, da Jornada Mundial da
Juventude no Rio de Janeiro e com a presença do Papa Bento XVI, a CF tem
por Tema: FRATERNIDADE E JUVENTUDE e o Lema: “EIS-ME AQUI. ENVIA-ME”.
Com esta lembrança, queremos incentivar os caros irmãos e irmãs a que
participem ativamente da CF em todas as nossas paróquias, movimentos e
associações. Assim, nas reflexões desta Carta, cremos desnecessário
tecer comentários a respeito.
Desejando a todos um santo tempo quaresmal, vivido com as esperanças de uma alegre celebração pascal, deixo meu abraço fraterno,
Pe.José Gilberto BERALDO
Carta Pe. Beraldo mês de janeiro de 2013
Carta MCC Brasil - Jan 2013 (161ª.)
“Aquele que está sentado no trono disse:
“Eis que faço novas todas as coisas”.
Depois, ele me disse:
“Escreve, pois estas palavras são dignas de fé e verdadeiras” (Ap 21,5)
Amado leitores e leitoras, saudando-os fraternalmente neste início de um novo ano, espero, com mais esta Carta, “escrever-lhes palavras dignas de fé e verdadeiras”!
Notícia:
sendo estas nossas Cartas dirigidas especialmente ao Movimento de
Cursilhos de Cristandade do Brasil e aos seus participantes, comunico a
todos que no próximo dia 10 de janeiro, no escritório do Movimento, em
São Paulo, tomará posse a nova Coordenação Nacional eleita pela última
Assembleia Nacional e cuja gestão será, de acordo com o Estatuto do MCC
do Brasil no período de janeiro de 2013 a janeiro de 2016. É urgente,
portanto, que todos peçamos a Deus que, pelo Espírito Santo, ilumine e
fortaleça o novo Grupo Executivo Nacional do MCC para que, sensível aos
sinais dos tempos, saiba orientar o Movimento em busca do seu carisma
original e em plena comunhão com a Igreja. Referida esta importante notícia, passemos às nossas habituais reflexões.
Mais
um ano na história da humanidade ficou para trás. Projetos traçados,
não realizados; esperanças acalentadas, frustradas; sonhos sonhados,
esfumaçados; “profecias” amplamente propagadas (e, infelizmente, por
muitos acreditadas!), um fiasco... em fim, o mundo não acabou no dia 21
de dezembro! E segue a história o seu curso. Curso que, nos nossos
tempos, se caracteriza pelas surpreendentes – ou nem tanto, sobretudo
para os jovens – e aceleradas transformações e mudanças. Estamos já
quase cansados de ouvir que já não se trata de uma época de mudanças e,
sim, de mudança de época: mudanças radicais de mentalidade, de costumes,
de posturas, de modos de relacionamento, etc.. Contudo e apesar de
tudo, seguem - homens e mulheres -, desde sempre enredados nas mesmas
perguntas nunca definitivamente respondidas: quem sou eu? donde vim?
para onde vou? Não obstante, há
que se começar tudo de novo, pelo menos no calendário da sucessão dos
tempos. E nós, seguidores de Jesus pelos caminhos da história, qual
seria o ponto de partida para dar resposta a estas perguntas? Que olhar
lançamos nós sobre esta mudança de época? Continuaremos na mesmice e na
rotina de sempre?
Nosso olhar haverá de ser o olhar do próprio Deus, isto é, o olhar da fé. É “Aquele que está sentado no trono” que os diz: “Eis que faço novas todas as coisas”. Esta palavra é dirigida a todos os que creem, a todos convidando, neste início de ano, neste Ano da Fé, para uma renovação radical. “Fazer novas todas as coisas”, isto é, renovar-se mantendo acesa a chama da esperança. Como?
1. Renovar a mente ou, melhor diria, a mentalidade.
A mentalidade é a determinante de nossas decisões e de nosso modo de
agir, é maneira com que pensamos. Em outras palavras, renovar a
mentalidade e iluminá-la com a Palavra significa converter-se. A cada
novo dia, a cada manhã, a cada hora, a cada minuto... a Palavra é a
única agente de transformação contínua para os que têm fé. Portanto, o
fiel seguidor de Jesus, vai moldando a sua mentalidade à medida que a
Palavra – Jesus – vai traçando para ele um novo projeto de vida. Um novo projeto de vida para o ano que agora começa! Ouçamos São Paulo: “Não
vos conformeis com este mundo, mas transformai-vos, renovando vossa
maneira de pensar e julgar, para que possais distinguir o que é da
vontade de Deus, a saber, o que é bom, o que lhe agrada, o que é
perfeito” (Rm 12,2). Dessa forma, com nossa vida renovada e
estimulada por um novo projeto, poderemos ser mais autênticas
testemunhas de Jesus neste novo tempo da história!
2. Renovar suas opções fundamentais.
Ou seja: redirecionar para aquele que é “O CAMINHO, a VERDADE e a VIDA”
todos os seus planos para o novo ano. “Opção fundamental” significa
renúncia a tudo o que se mostra como acidental, transitório ou
secundário e, portanto, escolha do que é essencial, isto é, do
seguimento incondicional de Jesus. Renovar nossa opção fundamental é
optar pelo novo. Optar pelas “novas coisas” que Deus quer fazer por nós e conosco: “Eu
lhes darei um só coração e infundirei neles um espírito novo. Extrairei
do seu corpo o coração de pedra e lhes darei um coração de carne, de
modo que andem segundo minhas leis, observem e pratiquem meus preceitos.
Assim, serão meu povo e eu serei o seu Deus” (Ez 11,19-20). Renovar nossa opção fundamental é viver, a cada momento, uma vida nova. “Em
virtude da fé, esta vida nova plasma toda a existência humana segundo a
novidade radical da ressurreição. Na medida da sua livre
disponibilidade, os pensamentos e os afetos, a mentalidade e o
comportamento do homem vão sendo pouco a pouco purificados e
transformados, ao longo de um itinerário jamais completamente terminado
nesta vida. A «fé, que atua pelo amor» (Gl 5,6), torna-se um novo critério de entendimento e de ação, que muda toda a vida do homem (cf. Rm 12,2; Cl 3,9-10; Ef 4,20-29; 2Cor 5,17). São palavras inspiradas do Papa Bento XVI na sua Carta “A Porta da Fé” proclamando o Ano da Fé (cf.PF 6).
3. Renovar ou purificar seu olhar. Iluminados
pela fé, neste ano que começa, procuremos olhar com o olhar de Deus, as
circunstâncias que tecem a realidade de nossa vida. Não há dúvida de
que, apesar de tantas contradições do tempo presente, de tantas
desilusões e, ainda, de tantos desesperos, o cristão, no início do ano,
vê tudo com olhos de esperança. Ao dirigir-se aos Efésios, Paulo suplica
ao Pai que lhes dê o “Espírito da sabedoria e da revelação...” desejando: “Que
ele ilumine os olhos do vosso coração, para que conheçais a esperança à
qual ele vos chama, a riqueza da glória que ele nos dá em herança entre
os santos” (Ef 1, 17-18).
É bom iniciarmos um novo ano, lembrando o Ano da Fé
proclamado por Bento XVI com a Carta “A Porta de Fé” e que, entre
outras oportunas lembranças, assim se expressa no parágrafo 13: “Ao
longo deste tempo, manteremos o olhar fixo sobre Jesus Cristo, «autor e
consumador da fé» (Hb 12,2): n’Ele encontra plena realização toda a
ânsia e anelo do coração humano. A alegria do amor, a resposta ao drama
da tribulação e do sofrimento, a força do perdão face à ofensa recebida e
a vitória da vida sobre o vazio da morte, tudo isto encontra plena
realização no mistério da sua Encarnação, do seu fazer-Se homem, do
partilhar conosco a fragilidade humana para a transformar com a força da
sua ressurreição. N’Ele, morto e ressuscitado para a nossa salvação,
encontram plena luz os exemplos de fé que marcaram estes dois mil anos
da nossa história de salvação”.
Maria, é o primeiro dos “exemplos de fé”
de que fala o Papa. Feliz coincidência, então, começar o ano com a
Solenidade de Santa Maria, Mãe de Deus. Ainda com Bento XVI renovemos
nossa confiança para um novo, abençoado e fecundo 2013: “À Mãe de Deus, proclamada “feliz porque acreditou” (cf.Lc 1,45), confiamos este tempo de graça”!
Concluo
manifestando meu ardente desejo de que, pelos homens e mulheres de boa
vontade em todo o mundo, o espírito do Dia Mundial da Paz e da
Fraternidade Universal comemorado no primeiro dia do ano, possa perdurar durante todo o ano de 2013!
Meu abraço fraterno, com carinho, no amor “D’Aquele que está sentado no trono” e que “disse: “Eis que faço novas todas as coisas”,
quinta-feira, 3 de janeiro de 2013
O que é ser feliz? - Prof. Felipe Aquino
O que é ser feliz? - Prof. Felipe Aquino
A sede de felicidade foi colocada em nosso coração pelo próprio Deus, porque ele nos criou para sermos felizes com Ele. Mas o pecado desvirtuou o sentido da felicidade; e agora, ao invés de buscarmos a felicidade que traz alegria, corremos atrás da felicidade que traz somente o prazer.
Inventaram agora um tal segredo, através do qual você pode satisfazer todos os seus desejos não atendidos até hoje; é um sonho, uma miragem no deserto. A felicidade não é esta proposta por esta magia fantasiosa. A Carta da Felicidade é aquela que Jesus nos ensinou no Sermão da Montanha.
· Ser feliz não é ter uma vida perfeita, sem dor e sem lágrimas; mas saber usar as lágrimas para regar a esperança e a alegria de viver. Ser feliz é saber usar as pedras nas quais tropeçamos para reforçar as bases da paciência e da tolerância. Não é apenas se encantar com os aplausos e elogios; mas saber encontrar uma alegria perene no anonimato.
· Ser feliz não é voar num céu sem tempestade, caminhar numa estrada sem acidentes, trabalhar sem fadiga e cansaço, ou viver relacionamentos sem decepções; é saber tirar a alegria de tudo isto e apesar de tudo isto.
· Ser feliz não é só valorizar o sorriso e a festa, mas saber também refletir sobre o valor da dor e a tristeza. Não é só se rejubilar com os sucessos e as vitórias, mas saber tirar as grandes lições de cada fracasso amargo.
· Ser feliz é não se decepcionar e nem desanimar com os obstáculos e dificuldades, mas usá-los para abrir as janelas da inteligência e modelar a maturidade.
· Ser feliz é ser forte na hora de perdoar, ter esperança no meio da batalha árdua, lutar com bravura diante do medo, saber suportar os desencontros. É acreditar que a vida é a maior empresa do mundo.
· Ser feliz é jamais desistir de si mesmo e das outras pessoas. É jamais desistir de ser feliz; vivendo e crendo que a vida é um espetáculo e um banquete.
· Ser feliz é uma atitude de vida; uma maneira de encarar cada dia que recebemos como um lindo presente de Deus. É não se esquecer de agradecer a Deus a cada manhã pelo milagre da vida que se renova.
· Ser feliz é crer que há pessoas esperando o seu sorriso e que precisam dele. É saber procurar o que há de bom em tudo e em todos, antes de ver os defeitos e os erros.
· Ser feliz é não fazer dos defeitos dos outros uma distância, mas uma oportunidade de aproximação e de doação de si mesmo. É saber entender as pessoas que pensam diferente de nós e saber ouvi-las atentamente, sem respondê-las com raiva.
· Ser feliz é saber ouvir o que cada pessoa tem a nos dizer, sem prejulgar ou desprezar o que tem para nos dizer. É saber sonhar, mas sem deixar o sonho se transformar em fuga alienante.
· Ser feliz é fazer dos obstáculos degraus para subir, sem deixar de ajudar aqueles que não conseguem subir os degraus da vida. É saber a cada dia descobrir o que há de bom dentro de você e usar isto para o seu bem e o dos outros.
· Ser feliz é saber sorrir, mas sem se esconder maliciosamente atrás do sorriso; mostrar-se como você é, sem medo. É não ter medo dos próprios sentimentos e ter coragem de se conhecer e de se amar. É deixar viver a criança alegre, feliz, simples e pacífica que existe dentro de você.
· Ser feliz é ser capaz de atravessar um deserto fora de si mesmo, mas ser sempre capaz de encontrar um oásis dentro no seu interior.
· Ser feliz é ter coragem de ouvir um Não e continuar a caminhada sem desanimar e desesperar. É ser capaz de recomeçar de novo quando se errou o caminho. É acreditar que a vida é mais bela do que as suas dores, desafios, incompreensões e crises.
· Ser feliz é deixar de ser vítima dos problemas e se fazer autor da própria história.
· Ser feliz é ter maturidade para saber dizer “eu errei”; “eu não sei”; “eu preciso de você”…
· Ser feliz é ter os pés na terra e a cabeça nas estrelas; ser capaz de sonhar, sem medo dos sonhos, mas saber transformar os sonhos em metas.
· Ser feliz é ser determinado e nunca abrir mão de construir seu destino e arquitetar sua vida; não ter medo de mudanças e saber tirar proveito delas. Saber tornar o trabalho objeto de prazer e realização pessoal.
· Ser feliz é estar sempre pronto a aprender e se orgulhar de absorver o novo. Ter coragem para abrir caminhos, enfrentar desafios, criar soluções, correr riscos calculados. Sem medo de errar.
· Ser feliz é saber construir equipes e se integrar nelas. Não tomar para si o poder, mas saber compartilhá-lo. Saber estimular e fortalecer os outros, sem receio que lhe façam sombra. É saber criar em torno de si um ambiente de fé e de entusiasmo.
· Ser feliz é não se empolgar com seu próprio brilho, mas com o brilho do resultado alcançado em conjunto. É ter a percepção do todo sem perder a riqueza dos detalhes.
· Ser feliz é não se esquecer de agradecer o Sol, desfrutar gratuitamente dos encantos da natureza, do canto dos pássaros, do murmúrio do mar, do brilho das estrelas, do aroma das flores, do sorriso das crianças.
· Ser feliz é cultivar muitas amizades; é estar pronto para ser ofendido sem ofender, sem julgar e condenar.
· Ser feliz é não ter inveja e saber se contentar com o que se tem; é saber aproveitar o tempo que passa; é não sofrer por antecipação o que ainda não aconteceu; é saber valorizar acima de tudo a vida.
· Ser feliz é falar menos do que se pensa; é cultivar uma voz baixa. É nunca deixar passar uma oportunidade sem fazer o bem a alguém.
· Ser feliz é saber chorar com os que choram, sorrir com os que sorriem, rezar com os que rezam.
· Ser feliz é saber discordar sem se ofender e brigar; é recusar-se a falar das faltas dos outros; é não murmurar.
· Ser feliz é saber respeitar os sentimentos dos outros; não magoar ninguém com gracejos e críticas ácidas.
· Ser feliz é não precisar ficar se justificando; pois os amigos não precisam de explicações e os inimigos não acreditam nelas.
· Ser feliz é nunca se revoltar com a vida; é agir como a árvore que permanece calada mesmo observando com tristeza que o cabo do machado que a corta é feito de sua madeira.
· Ser feliz é ser como a raiz da árvore que passa a vida toda escondida para poder sustentá-la.
· Ser feliz é não deixar que a tristeza apague o seu sorriso; é não permitir que o rancor elimine o perdão; que as decepções eliminem a confiança; que o fracasso vença o desejo da vitória; que os erros vençam os acertos; que a ingratidão te faça parar de ajudar; que a velhice elimine em você o animo da juventude; que a mentira sufoque a verdade.
· Ser feliz é ter força para ser firme, mas ter coragem para ser gentil; é ter coragem para ter dúvida.
· Ser feliz é ter o universo como caminho; o amor como lei; a paz como abrigo; a experiência como escola; a dificuldade como estímulo; o trabalho como benção; o equilíbrio como atitude; a dor como advertência; a perfeição como meta.
· Ser feliz é amar a Deus e ao próximo.
Texto: Prof. Felipe Aquino
Fonte: blog.cancaonova.com/felipeaquino/
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